No 17º revezamento Volta à ilha de Florianópolis, fui escolhido pela minha equipe para ficar com uma das etapas mais temidas pelos corredores da prova, o Morro do Sertão. Essa etapa tem 15 km, com subidas de “arrepiar” os cabelos.

Semanas antes do evento a equipe fez uma reunião para definir qual trecho caberia a cada um.  O papel em que estavam os percursos era passado de mão em mão, com certo desdém e desprezo – e acredito que na cabeça de cada surgia o pensamento: “Não quero o morro, não quero morro!”. Mas, também, pudera! A organização do evento o descreve como: “O mais difícil”, Nota-se o “o” em destaque e para piorar a frase está em vermelho. É de se assustar mesmo.

Depois de muitas mudanças de mão, o papel de percursos já estava ficando amassado, decidi: “me dá o trecho 16! Eu vou subir o morro!”.  No dia seguinte já estava treinando pelas ladeiras do Bairro Uberaba, em Curitiba.

Durante a competição, vim pensando como seria o encontro com a etapa mais difícil da prova. Já tinha me surpreendido com meu percurso anterior pela dificuldade. “Se o primeiro foi complicado, imagina o trecho 16” pensei em tom de piada comigo mesmo, mas preocupado de verdade.

Chegou a hora. No pé do morro, as pequenas subidas já faziam o “esquenta” do que estava por vir. E depois do primeiro posto de hidratação, a “parede” surgiu.

Na primeira subida, tentei colocar um ritmo bacana, mas, a cada passada, as forças iam sendo minadas. Para se ter uma idéia de como era a subida,  depois de 1 km, eu já tinha uma maravilhosa vista da praia. Alto mesmo.

Com minhas pernas já pedindo “arrego”, mas mantendo o pequeno e lento ritmo, encontrei, no alto do morro, um senhor de cabelos e barbas longas, brancos, um visual que parecia mais de um velho motoqueiro, a não ser pelas roupas de corredor brancas que vestia.

Ele começou a conversar, eu esbaforido, ele com uma tranqüilidade que os anos de corridas pelo mundo lhe permitiam. “Eu já corri na Grécia, Alemanha, Japão, Estados Unidos e em lugares do mundo que você nem imagina”, contava o senhor, sorridente.  “Adoro correr nesse trecho, pois além do visual, gosto de ajudar os corredores que passam por aqui”. Senhor sacana, estava tirando um sarro pela minha dificuldade em subir o morro, mas ele completou: “Garoto, você corre bem, mas tem que ficar atento para alguns detalhes”.  E comecei a ouvir toda a experiência do senhor que já correu muitas maratonas e que conta detalhes da corrida, que sinceramente já sabia, mas é sempre bom alguém explicar novamente. “A subida, como na vida, é um grande obstáculo. Temos que ser cuidadosos, mas não podemos ceder a ela. Devemos manter a passada e o ritmo sempre com força e determinação. Sem medos e com equilíbrio”, me ensinava o corredor sábio.

Em certo momento, morro nos dá uma trégua, acabam por um tempo as subidas e apertamos o ritmo da corrida. Afinal, estamos numa competição e minha equipe precisa de mim. Até que recebo outro ensinamento do velho maratonista: “A descida não é diferente. Mesmo quando estamos em momento tranqüilo da corrida ou da vida, precisamos manter o equilíbrio e dosar a força para não tropeçarmos ou escorregarmos em imprevistos. Mantermo-nos sempre equilibrados é o segredo”, reforça o senhor.

E, parecendo que o velho já estava prevendo o futuro, começamos a subir novamente até o 9º km onde ele se despediu de mim: “boa corrida para você. Saiba que para baixo todo santo ajuda”… E desapareceu numa velocidade impressionante. Também, pudera! Logo após vinha a descida que não tinha fim. “Pernas, para que te quero!”, exclamo.

Terminada a descida e no nível do mar, novamente chego ao posto 17, onde entrego o bastão para o outro participante da equipe.  Termino minha participação na corrida com uma felicidade gigante e um pouco mais experiente depois das sábias palavras do Velho Corredor.

Professor especialista em Treinamento individual e Qualidade de Vida pela PUC-PR, Personal trainer e corredor nas horas vagas. Professor em Musculação e avaliador físico em Curitiba.

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